Obituário

Jean Remy, 1927-2019
O Jean Remy deixou-nos, neste domingo, 6 de outubro, com muitas ideias novas em cima da mesa, umas já bem arrumadas, outras nem por isso, mas todas com aquele brilho nos olhos e entoadas com aquela voz (que nos últimos tempos ficou mais fina) que afirmava ao mesmo tempo que interrogava, apoiada nas certezas de quem trilhou muitas vezes as pontes entre o ator e o sistema, à procura do melhor sentido das transações que estes atores por aí se engenham em jogar, sim, melhor jogar que construir, por que os desafios que aí se tramam podem ter múltiplas chamadas, as entradas que se apostam podem ter diferentes valores (ou só interesses?) e os desfechos são sempre incertos, talvez até mais incertos nuns casos do que noutros ou para uns mais do que para outros, por que os elementos que constituem o jogo organizam-se sempre entre constrangimentos e possibilidades de uma forma semiestruturada, produzindo resultados semi-aleatórios… Certo, Jean, não é o bom momento, agora, mas vamos ter, num destes dias, de discutir essas ideias que nos deixaste em cima da mesa.

Referências de Jean Remy ou sobre Jean Remy em português:
RÉMY Jean; VOYÉ, Liliane (1994). A cidade: rumo a uma nova definição? Porto: Edições Afrontamento
RÉMY, Jean (1995). As modas, as posições intermédias e as espacializações do social. In: Sociedade e Território. Porto: Nº 21, março, pp 132-144
REMY, Jean e VOYÉ, Liliane (2016) Espaços e Transações Sociais, (com Apresentação de A. Dimas Cardoso), Col. Método e Teorias, Coedição Editora Unijui, Ijuí RS Brasil, Editora Unimontes, Montes Claros, MG Brasil e CICS.NOVA, FCSH, UNL, Lisboa, 296p
BALSA, Casimiro (Ed.), Relações sociais de espaço – Homenagem a Jean Remy, Col. CEOS/Inquéritos- 4, Edições Colibri/CEOS, Lisboa, 2006, 230p.

Casimiro Balsa

9 de outubro de 2019

[Foto obtida em: https://www.babelio.com/auteur/Jean-Remy/269767]


Jean Remy, (1927-2019) foi Professor Emérito na Universidade Católica de Lovaina trabalhou com muitos investigadores portugueses e, mais recentemente, brasileiros. Creio que a última vez que se deslocou ao estrangeiro foi para participar num colóquio que organizámos na FCSH, com Colegas da Universidade Estadual de Montes Claros. O texto da sua conferência faz parte de um trabalho sobre a “Cidade – Escalas e transações” que será publicado em breve. Entre muitas outras visitas, participou em Lisboa numa homenagem que lhe fizeram muitos amigos e da qual resultou o livro “Relações sociais de espaço” e do qual reproduzimos o essencial da apresentação que então fizemos do seu trabalho e à qual nos limitámos a acrescentar uma ou outra nota de atualização.
As razões da homenagem que lhe prestámos em vida são as mesmas que nos levam a prestar-lhe esta homenagem, agora, por ocasião da sua morte.
Em primeiro lugar Jean Remy foi, de facto, para além de professor, um mestre para muitos de entre nós. A sua vasta cultura na área das ciências sociais – concentrando a sua atividade de docente e de investigador na sociologia, Jean era doutor em economia e licenciado em filosofia – permitiu-lhe trabalhar com facilidade em diversos temas e desenvolver diferentes problemáticas. A sociologia do espaço e do território, nas vertentes rural e urbana foi, sem dúvida, aquela que reúne a maior parte da sua produção. Mas Jean Remy investiu igualmente muito na sociologia da religião e das práticas simbólicas, para além de ter trabalhado, ainda as áreas da educação, das relações inter-étnicas, da família, das organizações… Mas o que sobretudo caracteriza o ensino de Jean Remy, é a sua grande capacidade de entrar em qualquer tema e de começar a questioná-lo, a desmontá-lo, camada após camada, a estabelecer relações entre as partes… Para o estudante que vem à procura de uma receita rápida para despachar um trabalho, Jean é um pesadelo, porque ele enreda mais do que simplifica, questiona muito antes de responder.
Mas, para além da sua atitude face às problemáticas e às teorias, que ele ora faz desfilar nas suas versões canónicas ora as desafia ao impor-lhes as saliências dos factos, o que talvez mais singularize a abordagem de Jean Remy é o jeito que ele tem de desconstruir/construir o conhecimento das questões que lhe são propostas. Quem conhece bem Jean Remy sabe que, no fundo, a respiração da sua reflexão comporta invariavelmente três tempos: 1) um inventário paciente de dimensões ou aspetos da questão tratada, apoiado, quase sempre, em referências a situações empíricas que revelam uma grande capacidade de absorver o quotidiano e de com ele aprender; 2) são consideradas, a seguir, as interdependências que se estabelecem entre estes elementos, que podem agir em diferentes sentidos, com diferentes estatutos e com intensidades que variam de acordo com uma geometria variável, e que formam entre si combinatórias específicas, 3) a partir destas combinatórias podem construir cenários, constelações de hipóteses que permitem chegar a um melhor conhecimento dos objetos de estudo, das suas dinâmicas, das suas posições relativas ou do sistema de causas ou de efeitos que com eles se relacionam. De preferência, estes elementos são considerados interagir, de uma forma semi-estruturada e produzir efeitos semi-aleatórios. O desenrolar deste exercício deixa na folha de papel ou no quadro da sala de aula um emaranhado de projeções gráficas da reflexão, ligadas entre si por inúmeros vetores que estabelecem os sentidos prováveis dos efeitos ou das relações e integradas depois em movimentos circulares que criam as zonas de pertinência ou de coerência provisórias que se vão progressivamente construindo.
A segunda razão do reconhecimento que esta homenagem pretende lembrar, tem a ver com o facto de Jean Remy ser um magnífico representante e, ao mesmo tempo, ter marcado profundamente um modo de fazer e de ensinar a sociologia que nós pensamos singularizar a “escola” de sociologia de Lovaina.
Parece-nos, em primeiro lugar, que o que caracteriza o pensamento sociológico de Jean Remy é, para além de um sentido aguçado para a produção teórica, uma profunda sensibilidade metodológica. No entanto, recusando-se estabelecer uma estéril hierarquia de importância ou de precedência entre “teoria” e “metodologia”, Jean Remy integra-as num mesmo movimento de construção sociológica, onde o esforço em torno da produção teórica não pode ser isolado de uma vincada consciência metodológica, como o esforço em torno da produção metodológica é profundamente vincado pelo esforço de teorização. A gestão desta interdependência não o impede no entanto de reconhecer as modulações a estabelecer entre os dois tipos de investimentos tendo em conta as fases do processo de investigação ou as conjunturas de produção da sociologia.
Uma segunda característica desta sociologia reside na dificuldade em assumir ou em polarizar a produção em torno de posições dogmáticas, aquelas que tendem a impor-se, polemicamente, como a única “verdade” das coisas. Esta posição aparece como uma característica tanto mais marcante no pensamento de Jean Remy quanto ela se desenvolve num contexto de produção e de relações de trabalho dominado pela sociologia francesa que, ela, pelo contrário, tende a constituir-se, preferencialmente, em torno de “escolas” de pensamento que se definem em oposição às outras ou ignorando as outras, procurando cada uma impor as suas leituras da realidade social. Jean explicou esta sua posição em trabalhos de genealogia mas também biográficos realizados com amigos no decorrer da última década da sua existência
Finalmente, a sociologia de Jean Remy, como a sociologia de Lovaina, reparte-se entre um esforço de sistematização da própria disciplina e uma grande implicação social. Esta implicação pode ir do estudo de problemas sociais concretos ou do esclarecimento da ação de movimentos ou de atores sociais, até ao desenvolvimento de sociologias especializadas fortemente ancoradas nas realidades de referência (que nem sempre se limitam ao contexto belga…) e que, no caso de Jean Remy, o levaram a investir, de forma mais continuada, em dois centros de investigação em Lovaina, um sobre sociologia urbana e rural, outro sobre sociologia sócio-religiosa e num terceiro, mais diversificado de um ponto de vista temático, radicado nas Faculdades Saint-Louis, em Bruxelas. Para além disso é conhecida a sua intensa atividade enquanto urbanista na construção da cidade de Louvain-la-Neuve.
A terceira razão que justifica esta homenagem tem a ver, finalmente, com o lugar que Jean Remy ocupa na sociologia europeia.
A posição que Jean Remy ocupa na produção sociológica europeia deve muito, para além do facto de ele ser uma das figuras emblemáticas da sociologia de Lovaina, à relação ao mesmo tempo de proximidade e de distância, para o dizer numa das suas fórmulas características, que ele soube estabelecer por um lado, com a sociologia americana e, por outro lado, com os principais polos estruturantes da sociologia francesa, tal como o referimos antes. O seu espírito criativo e o prazer que lhe dá deixar-se surpreender pelo desconhecido, exigem dele um investimento heurístico e uma plasticidade instrumental demasiado grandes para que possa limitar-se a aplicar fórmulas feitas. Ele sabe no entanto retirar de cada fonte que o interessa os elementos de reflexão necessários para construir, a partir deles, com aquele brilho nos olhos que lhe conhecemos, as suas próprias trilhas da interpretação. Se nos é permitido deslocar do seu contexto uma fórmula consagrada da sociologia, o conhecimento a que ele chega, deste modo, é bem superior à soma dos empréstimos que ele faz às fontes a que recorre. Esta característica faz com que a sociologia de Jean Remy seja espacial e logo existencial e temporalmente enraizada e, ao mesmo tempo, profundamente cosmopolita. Aliás, este jeito de jogar entre e com polaridades de sentidos opostos, que o grande interesse que ele tem pelo trabalho de Simmel ajudou, certamente, a estruturar, caracteriza bem a forma como Jean Remy gosta de fazer sociologia.
A compreensão do modo particular como os atores investem no social, exercendo as prerrogativas que lhes advêm duma autonomia relativa e de um poder de criação que sempre o fascinou, conduzem naturalmente Jean Remy a ter de enfrentar a oposição clássica, entre uma componente mais individual, existencial e fluida do social e a sua vertente mais estrutural, instituída e rígida. Jean Remy distingue, nesta ordem, primeiro, as representações da dinâmica das sociedades que se constituem entre os planos da “produção” e da “reprodução”, da “ação” e da “estrutura”, da “apropriação” e da “instituição”. Ele considera, em seguida, a conceção do jogo de forças entre as quais o sujeito se constitui e que se estabelece entre uma representação do indivíduo considerado, por um lado, como um ser polimorfo e motivado por desejos ilimitados e, por outro lado, como um ser racional construído através da sociedade. Finalmente, ele considera o sistema de constrangimentos que pesam sobre esta produção pelo facto de o processo de integração poder depender, a um nível, de um sistema complexo de interdependências e, a outro, de uma ordem moral suscetível de assegurar a coesão da sociedade e a sua capacidade de produzir projetos. A problemática da transacção social permite a Jean Remy e às equipas que se constituíram em torno das suas posições, explorar os processos, os dispositivos e as dinâmicas que se constituem entre estas diferentes polaridades. Se a noção de interstício ou de espaço intersticial lhe é tão peculiar, é precisamente por que ele valoriza sobremaneira o estudo das tensões, dos jogos de força entre os quais e através dos quais se constituem os atores, as lógicas das suas posição e disposições e, finalmente, a própria sociedade. Mas os seus investimentos analíticos incidem, preferencialmente, nas tensões que se constituem ou se ancoram ao nível dos atores, avaliando e interpretando os sentidos dos seus agires, através do emaranhado de forças que, em conjunção com situações, contextos ou dispositivos sociais, balizam as suas vidas quotidianas. A regulação do social que é assim obtida (que é muitas vezes lida através das figuras da negociação, do mercado ou do dom/contra-dom ), permite pôr em cena tensões que podem circular entre o psíquico e o social, o pessoal e o impessoal ou o racional e o afectivo…
Finalmente, pelo tipo de investimento que caracteriza a sua produção, a sociologia de Jean Remy enfrenta o desafio da complexidade e perfila-se, com essa ambição, entre os contributos marcantes da produção sociológica contemporânea.

Seleção de Bibliografia de e sobre Jean Remy

Blanc, Maurice, 1992, (Textes réunis et présentés par) Pour une sociologie de la transaction sociale, Coll Logiques Sociales, Paris, l’Harmattan
Blanc, Maurice, Mormont, Marc, Rémy, Jean et Storrie Tom, 1994, (Textes réunis et présentés par) Vie quotidienne et démocratie – pour une sociologie de la transaction sociale (suite). Coll Logiques sociales, Paris, l’Harmattan.
Foucart, Jean, Blanc, Maurice, Stoetsel-Titz, Gibout, Chistophe, Penser et agir dans l’incertain : l’Actualité de la transaction sociale, Pensée Plurielle, Ed. Deboek, 2013/2-3, nº 33-34
Freynet, M.-F., Blanc, M. et Pineau, G. (coord), 1998, Les transactions aux frontières du social – Formation, travail social, développement local, Coll Compendre la société, Lyon, éd. Chronique sociale, 252 pp.
Remy, Jean, 2015, L’Espaçe, un objet central de la sociologie, Eurès, 183 pp
Remy Jean, 2005, Négociations e transaction sociale, Entretien avec Jean Remy par Bernard Fusulier, in Revue Négociations, nº3, 2005/1, Louvain-la-neuve, éd. Deboeck Université, pp 81-95
Remy, Jean, 2004, Prendre au sérieux la complexité – Nouvelles bases pour une critique sociale , in Revue Éducation et Sociétés, «La posture critique en sociologie de l’éducation », INRP, Bruxelles, éd. Deboeck, pp. 11-42.
Remy, Jean, 1999, La transaction : entre le contrôle social et régulation, in Cartuyvels, Y et Marié, Ph., L’État face à l’insécurité, Bruxelles, Labor, pp.205-235.
Remy, Jean et Leclercq, Étienne, 1998, Sociologie urbaine et rurale – L’espace et l’agir, Paris, Montréal, L’Harmattan, 399 pages.
Remy, Jean, 1998, La transaction sociale : forme de sociabilité et posture méthodologique, in Freynet, M.-F., Blanc, M. et Pineau, G. (coord), 1998, Les transactions aux frontières du social – Formation, travail social, développement local, Coll Compendre la société Lyon, éd. Chronique Sociale, 252 pp.
Remy, Jean, 1996 La transaction, une méthode d’analyse : contribution à l’émergence d’un nouveau paradigme, in Revue Environnement et Société, nº 7, pp. 9-31
Remy, Jean, (sous la direction de) 1995, Georg Simmel : Ville et Modernité, Coll. Villes et entreprises, Paris, éd. L’Harmattan, 176 pp.
Remy, Jean, 1994, La transaction : de la notion heuristique au paradigme méthodologique in Blanc, Maurice, Mormont, Marc, Rémy, Jean et Storrie Tom, 1994, (Textes réunis et présentés par) Vie quotidienne et démocratie – pour une sociologie de la transaction sociale (suite). Coll Logiques sociales, Paris, l’Harmattan, pp. 293-319.
Rémy, Jean, et Rucquoy, Danielle, 1990, Méthodes d’analyse de contenu et sociologie, Bruxelles, FUSL, 241 pages.
Remy, Jean, 1987 «Présentation» de Hiernaux, J-P, L’Institution culturelle – Méthode de description structurelle, Presse Universitaire de Louvain (UCL), Publications de l’Institut des Sciences Politiques et Sociales, pp VII a XIV.
Remy, Jean, Voyé, Liliane et Servais, Émile, 1978, Produire ou Reproduire – une sociologie de la vie quotidienne, Tomes 1 et 2, Bruxelles, Les Éditions Vie Ouvrière.
Remy, Jean, com a colaboração de Liliane Voyé. Espaços e Transações Sociais, (com Apresentação de A. Dimas Cardoso), Col. Método e Teorias, Coedição Editora Unijui, Ijuí RS Brasil, Editora Unimontes, Montes Claros, MG Brasil e CICS.NOVA, FCSH, UNL, Lisboa, 296p